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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

MITOLOGIA - ADÃO E EVA


Jung descobrira que além do consciente e inconsciente pessoais, já estudados por Freud, existiria uma zona ou faixa psíquica onde estariam as figuras, símbolos e conteúdos arquetípicos de caráter universal, freqüentemente expressos em temas mitológicos. Neste mito bíblico de Adão e Eva comendo do fruto da árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e, por isso, sendo expulsos do Paraíso, há algo que toca fundo na mente e nas emoções das pessoas de forma quase "instintiva", como se uma parte de nossas mentes "entendesse" o real significado da história: o homem sempre paga um alto preço pela ousadia de querer ser Deus.
A figura do homem ADÃO e da mulher EVA representam a própria condição humana em si, ou seja, são arquétipos existentes em cada um de nós, enquanto humanos, mortais, passivos de ser seduzidos por milhares de fatores (poder, sexo, aquisição de bens materiais, etc.) e capazes de seduzir de uma forma ambivalente (ora para o bem, ora para o mal).

Na humanidade, Adão e Eva também representam o animus e a anima. A mulher Eva vem como um dos quatro estágios da anima no seu desenvolvimento. A figura da Eva é o primeiro estágio que representa o relacionamento puramente instintivo e biológico. A Eva é o símbolo da fecundidade, é a mãe deste mundo temporal. Pode-se pensar que foi atribuído a responsabilidade pela queda (pecado) à mulher porque ela representa a vida. O homem não chega à vida senão através da mulher; é a mulher, portanto, que nos traz a esse mundo de pares opostos e de sofrimento. Esse par de opostos começou com o pecado, pois antes o homem, a mulher e Deus eram um só; viviam num mundo mitológico de sonhos do Paraíso, onde não há tempo, e o homem e a mulher sequer sabem que são diferentes um do outro. Quando eles comem a "MAÇÃ" (símbolo sedutor pela própria cor e formato, que pelo ruído "crocante" ao ser mordida, dá água na boca; é o fruto - o resultado da opção feita), passam a ser ver como opostos e quando descobrem que são diferentes, cobrem seus genitais - símbolos da diferenciação. Então, o homem, quando "peca" (usa mal da sua liberdade), desintegra-se, impedindo a auto regulação. Adão e Eva constituem uma oposição macho e fêmea. A oposição sexual é a primária. Assim, eles se expulsaram a si mesmos do Jardim da unidade atemporal pelo fato de haverem reconhecido a dualidade.

Saindo para o mundo ele tem de agir em termos de pares de opostos. Essa é a mudança de consciência, da consciência de identidade para a consciência na participação na dualidade. E isto se dá na esfera do tempo.

Quanto ao Adão, trata-se também do estágio um e personifica a força física, o aspecto biológico, o pensamento, a razão.

De um modo geral, podemos pensar nestes arquétipos, como a imagem do homem terreno, que está voltado para as coisas terrenas, materiais versus o divino, o transcendente.

O homem deve partir desse terreno, mas não pode ficar preso a ele, e sim relacionar-se com a Transcendência, que é o seu verdadeiro Self, seu verdadeiro "eu".


Segundo Gênesis, Deus questiona Adão dizendo: "Vós comestes da árvore da qual ordenei que não comêsseis?". O homem disse: "A mulher que me destes para estar comigo, me deu o fruto da árvore e eu o comi.". Então Deus disse à mulher: "Que fizestes vós?". E a mulher disse: "A serpente me enganou e eu comi." Gen.3,11-13

Isso de transferir responsabilidades começou muito cedo.
Essa história aponta um terceiro iniciador da queda: a serpente. A SERPENTE é o símbolo da vida, desfazendo-se do passado e continuando a viver. O poder da vida leva a serpente a se desfazer de sua pele para renascer, assim como a lua se desfaz de sua sombra. A serpente representa a energia e a consciência imortais, engajadas na esfera do tempo, constantemente, atirando fora a morte e renascendo. Com isso, a serpente carrega em si o sentido da fascinação e do terror da vida, simultaneamente. Todo ser humano carrega dentro de si a ambivalência da vida e da morte. A serpente dá a sensação primária de espanto, da vida em sua condição mais primitiva. Pode-se afirmar então que ela representa essa vida de transformação, porém, a partir do momento em que atua como enganadora, astuta e sedutora, passa a representar a recusa em afirmar a vida, tornando o impulso natural à vida (instinto) pecaminoso e corrupto. Neste mito, a associação entre a serpente e a mulher, como aqueles seres que trouxeram o pecado ao mundo, e entre a vida e o pecado, é um desvio imposto à história da criação, segundo a Bíblia.

Buscando associar a representação da serpente dentro do processo psíquico, pode-se dizer que ela representa o processo de transformação, no qual o indivíduo precisa se libertar de algumas "cascas" e permitir mudanças que favoreçam o fluir do psiquismo. No entanto, ela representa também a sombra da manipulação do conhecimento, que possuía, seduzindo a mulher e levando-a à efetivação do pecado. Considerando que, a interação do homem com a natureza está representada nesta relação com a serpente, e que a mesma flui como a água, mas sua língua continuamente dispara fogo, pode-se pensar nisso como um par de opostos. No psiquismo humano podemos ver a serpente como a consciência que pode transformar o instinto tanto num fluir para gerar vida, como numa ação sedutora para aniquilar o outro.

"A serpente afasta os homens de Deus" - entende-se como o afastamento do homem do seu Self, numa falha no processo de individuação.

A serpente encontrou Eva e Adão no Jardim do Éden.

"O Jardim do Éden é uma metáfora para aquela inocência que desconhece o tempo, desconhece os opostos, e vem a ser o centro primordial a partir do qual a consciência se dá conta das mudanças." (Campbell, 1991).

Segundo o livro "O poder do mito", pode-se verificar que essa história trata de identidade, de um "eu sou" que, quando identifica-se, tem medo. Retrata o conceito junguiano de Self no qual o indivíduo busca o seu verdadeiro "eu", sua essência. Contudo, percebe-se claramente no processo terapêutico e na própria vida, a imensa dificuldade do ser humano em buscar o Self; o medo que envolve essa situação, o que faz, as vezes, com que o indivíduo se afaste desta busca.

No Jardim do Éden encontra-se a "Árvore da Vida" e a "Árvore do conhecimento do bem e do mal".


A "ARVORE DA VIDA" significa a sabedoria, o conhecimento de si mesmo. O homem é mortal por natureza, mas aspira a imortalidade que lhe será finalmente concedida. O paraíso perdido pela falta do homem é a imagem do paraíso reencontrado no próprio ser do homem, pela graça de Deus. O paraíso perdido representa no homem a ausência do conhecimento de aspectos inconscientes e a falta de integração com a consciência.

Nessa condição, o homem vive a ambivalência, que é própria de sua constituição, mas neste caso aparece de uma forma desintegrada, desregulada. A graça de Deus é o próprio processo de individuação. Comer do fruto da árvore da Vida significa seguir a Lei de Deus, significa possuir a vida, escolher a vida, escolher a bênção e não a maldição, no sentido de optar por aquilo que realmente faz sentido, tem a ver com sua essência e não o que trará sofrimento.


A "ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL" representa a opção por adquirir o conhecimento suficiente para ser igual a Deus, ou seja faz uso inadequado de um conhecimento. O homem quer se colocar no lugar de Deus, no sentido de ocupar o lugar Dele, de se julgar melhor que os outros. Nota-se que há um dimensão do ser humano, que pode ser acessada, a partir de um desejo de ser auto suficiente, de obter grandeza, de estar acima dos outros e poder ditar o que é certo e errado, em outras palavras: absolutizar-se, havendo uma ganância pelo poder. O homem nesta condição, 'comendo o fruto da Árvore do bem e do mal' pratica atos de injustiça, de opressão, de violência, de manipulação, tanto consigo mesmo quanto com o outro.

A diferença entre as duas árvores está no sentido da busca do conhecimento: na árvore da vida, busca-se conhecer em função do uma relação mais autêntica consigo, com outras pessoas e com Deus. Na árvore do conhecimento do bem e do mal, a busca se dá no sentido de "ser mais" para manipular e dominar.

O PECADO não veio para condenar o homem, ou seja, o homem não tem que trabalhar duro, ou a mulher não tem a dor do parto só por causa do pecado. O pecado significa o afastamento, a perda de intimidade com Deus (aqui representando o "eu"). Portanto, o que muda é o significado do trabalho e da dor. O homem deixa de ser o jardineiro de Deus para lutar contra um solo hostil. A mulher ao invés de ser associada do homem e sua igual, se tornará sedutora dele, o qual a sujeitará para ter filhos. Mas o grande castigo será a perda da familiaridade com Deus. O ser humano, quando não passa pelo processo de individuação, afasta-se de si mesmo trazendo angústias e conflitos ante as ambivalências que estão dentro dele. Portanto, um homem pode conquistar um grande cargo, almejado e não sentir-se realizado, pois a auto-realização não está naquilo que ele faz, mas no sentido que ele dá àquele fazer.

Segundo Campbell, há similaridades em culturas distantes tais como a questão da coisa proibida e isso se deve ao fato de que a psique humana é essencialmente a mesma, em todo mundo. A psique é a experiência interior do corpo humano, que é essencialmente o mesmo para todos os seres humanos, com os mesmos órgãos, os mesmos instintos, impulsos, conflitos e medos. A partir desse solo comum, constituem-se o que Jung chama de arquétipos que são as idéias em comum dos mitos. Em relação ao mito de Adão e Eva, Deus sabia que o homem iria comer o fruto proibido, mas só procedeu assim, para possibilitar ao homem a livre escolha de se tornar o iniciador de sua própria vida.

(TEXTO ELABORADO POR MIM E PELA MINHA MADRINHA E GRANDE AMIGA LÍDIA VIALTA; imagem da net )

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