PSICOLOGIA

PSICOLOGIA
PSICOLOGA LUCIANA VOOS CRP 06/75105

Pesquisar este blog

sábado, 4 de junho de 2011

O medo de Narciso de trair a si próprio




“Aproximou-se certo dia de uma fonte clara como prata e não contaminada pelo gado, pelo pássaros, pelas feras nem pelos ramos caídos das arvores próximas. Narciso, sentando-se, exausto, na margem daquela fonte, logo se enamorou de sua própria imagem. Primeiro tentou abraçar e beijar o belo jovem que tinha diante de si; depois, reconheceu a si mesmo e permaneceu horas fixando o espelho da água da fonte como se encantado. O amor lhe era, ao mesmo tempo, concedido e negado; ele se consumia de dor e, ao mesmo tempo, gozava de seu tormento sabendo que, ao menos, não trairia a si próprio, acontecesse o que acontecesse.”
Amar, Trair pg 67 (Aldo Carotenuto)

Narciso morria de medo de trair a si próprio, mas afinal o que é isso? Não trair a si próprio significa a determinação de não separar-se da própria imagem e, conseqüentemente, não confrontá-la com outras imagens, com outros rostos, com outras intencionalidades. Se ver de frente com o outro, o diferente nos ameaça, temos medo de perdermos nossa identidade. Na verdade Narciso se esconde dentro de si mesmo por medo do fracasso... O amor propõe o rompimento da casca narcísica. Narciso não quer correr o risco de trair a si próprio e acaba apaixonado por uma imagem, algo que ele idealiza. Talvez ele seja alguém que, por ter sido traído muito cedo, não aprendeu a trair a si próprio.

“Dimensoes do ser, como sinceridade ou franqueza, remetem ao universo da descoberta de si totalmente indefeso e de ser entregue ao arbítrio do outro.”
Amar, Trair pg70 (Aldo Carotenuto)

Narciso é incapaz de trair sua imagem uma vez que não sabe separar-se dela ou não sabe suportar a experiência da separação. Narciso queria viver intensamente aquele amor mas não saia do lugar... não produzia frutos. Na verdade estava afundado na sua solidão.
Quando somos jovens, por causa do pouco conhecimento que temos de nós mesmos é mais fácil projetarmos no outro nossos desejos interiores e viver assim o amor por si mesmo, um amor que nunca sai do círculo narcísico.

“Se não quisermos ser feitos de tolos pelas nossas ilusões devemos, pela analise cuidadosa de cada fascínio, extrair deles uma parte de nossa personalidade, e reconhecer lentamente que nos encontramos conosco mesmos repetidas vezes, em mil disfarces, no caminho da vida.”
Jung

Ás vezes com medo de nos trair nos apaixonamos por nós mesmos, pela nossa imagem. Narciso deixou-se levar pelo instinto e patologicamente um dos cinco instintos começa a dominar o resto e restringe sua progressão para a satisfação. No caso dele falta a reflexão sadia (voltar-se para si mesmo). Sob esta influencia, ama-se o que se auto-reflete e, reflete-se o que se ama.

Sobre o Narciso que vive em nos, muitas vezes temos medo do diferente, do desconhecido, do que nos incomoda e não queremos ver nem mesmo no “outro”. Vamos buscar um re-conhecimento, uma re validação de que valemos alguma coisa, de que somos importantes para alguém. “Assim, continuamos como Narcisos procurando e nos apaixonando por nossos reflexos, por nossos “semelhantes”, por nossos iguais e desprezamos o que é diferente; essa é a base da nossa sociedade de incompreensão, violência contra o diferente. Mas é pecado querer estar em comunhão com nossos iguais? Não, quando o olhar não se enrijece, quando há uma abertura dos sentidos que se amplia no espaço, quando há lugar na minha vida, na minha alma para o diferente, o oposto, o não-eu.”

Referencias:
http://www.sca.org.br/artigos/Narciso.pdf
Amar, Trair, Aldo Carotenuto
imagem da net

Nenhum comentário:

Postar um comentário